2009-08-31

Dia 4

A actividade foi tanta neste terceiro dia que eu perdi a conta às árvores trabalhadas. Durante a manhã, estive a desempenhar tarefas de rotina: defoliação parcial de áceres, pinçagem de juníperos, poda de rebentos de uma varieadade de plantas... enfim, nada de muito criativo.

Durante a tarde estive ao lado do Sensei a preparar juníperos. O procedimento foi pegar num junípero qualquer, olhar bem para ele, escolher a frente, discutir a estética e executar. Impressionante a humildade do Sensei, que me perguntou sempre o que fazer com as plantas, qual era a minha opinião. Depois, falou demoradamente sobre cada uma, explicou o que devia ser realçado e qual devia ser a opção estética mais favorável. Em seguida, eu e o Sensei fizemos um desenho cada um do aspecto final da planta e finalmente tudo era posto em prática. Descobri que a minha técnica era muito má, principalmente a aramar. Tenho bolhas nos dedos de tanto aramar (com cobre) e vou melhorando com a repetição.

Aqui ficam as fotografias de alguns dos juníperos:

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Este deixou-me orgulhoso, não só pela imagem final, mas também porque pela primeira fez o Sensei aprovou uma execução técnica totalmente feita por mim:

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Em 3 horas e meia foram trabalhados estes juníperos:

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Finalmente, mais detalhes de árvores em Taisho-en. A profundidade de um ramo de um pinheiro negro:

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Detalhe da estrutura de um ramo de um pinheiro vermelho:

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2009-08-30

Dia 3

A maior parte do tempo durante a manhã foi passado a trabalhar mais gardénias. Quando senti que estava finalmente a apanhar o jeito (foram mais de 40), eis que chega o Sensei com uma surpresa: um upgrade. Deu-me este tosho shohin (Juniperus rigida) e disse-me para pinçá-lo. Queria manter a definição dos ramos. Não há foto do antes, aqui trabalha-se muito depressa...

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Tratei de dois toshos e entretanto era hora do almoço. Os sábados são muito movimentados por aqui. Parece que há uma espécie de clube. Começaram a chegar clientes e ao final da manhã havia uns quinze reunidos em torno do Sensei, a trabalhar muitos shohin e alguns mame. Não percebi nada do que diziam, mas havia uma palavra que estava sempre a ser dita: sakufu-ten... acho que estavam a preparar árvores para participar nessa exposição.

Depois do almoço, aconteceu algo que me deixou surpreso. Não sei se é normal, mas o Sensei esteve todo o tempo ao meu lado, não fez outra coisa senão acompanhar-me. Falou-me sobre estética no bonsai, sobre equilíbrio em geral - o que ele considera ser a mais importante característica num bonsai, sobre equilíbrio estático e equilíbrio dinâmico e quando é mais apropriado usar um ou outro. Sempre com exemplos. Foi uma conversa muito enriquecedora e que fez com que eu compreendesse o estilo do Sensei.

Como passámos tanto tempo a falar, não trabalhámos muitas árvores. As fotografias de todas seguem abaixo:

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Nestas árvores, o trabalho foi essencialmente de rotina. O objectivo era analisar diferentes estilos. O Sensei explicou-me como enxertou o segundo ramo, o da esquerda, neste sugi (que é maior do que parece). O ácer tridente na rocha sofreu o primeiro trabalho de selecção dos ramos.

Ainda havia espaço para mais surpresas. O Sensei levantou-se e apareceu mais tarde com dois juníperos itoigawa. Disse-me que lhes podia fazer o que eu quisesse. Tinha que usar a minha imaginação e criatividade. Pediu que fizesse um desenho e lhe mostrasse para discutirmos. O processo foi demorado e a discussão sobre as opções estéticas longa. O resultado foi este:

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Serão sem dúvida dois shohin muito bons no futuro. Os troncos medem cerca de 8cm de diâmetro e este material é comum por aqui.

Alguns exemplos de árvores de Taisho-en para terminar.

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2009-08-29

Dia 2

O dia começou às 6:30. Aqui amanhece nesta altura do ano pelas 4:45 e escurece pelas 18:30, por isso a melhor altura para começar é bem cedo. O jet lag ajuda...

Cheguei a Taisho-en antes do Sensei, mas despois tive que fazer uma retirada estratégica: voltei a casa porque os mosquitos não me largavam. O repelente resulta. :D
Quando regressei, o Sensei estava a chegar. Apresentei-me com o meu discurso em japonês preparado previamente vezes sem conta. Urushibata-Sensei riu-se e respondeu em inglês. Afinal ele fala bem inglês...

O mais importante que me disse o Sensei, depois de me perguntar qual o nível do Bonsai em Portugal, foi: "please spread what you learn here through your country". Aqui partilha-se o conhecimento e a experiência sem reservas, o que nem sempre ocorre no pequeno mundo bonsaista português...

O mais engraçado que me disse o Sensei nessa conversa foi: "I will teach you bonsai in samurai style". Isto quer dizer muito wax on, wax off...

Antes de começar o trabalho, tenho que cumprir uma tarefa: varrer a entrada, no exterior, e toda a frente de Taisho-en que dá para a estrada. Tenho também a minha própria área de rega, levo 1h e 30min a regar tudo o que está à minha responsabilidade. Nesta altura do ano é necessário regar pelo menos duas vezes por dia.

A manhã foi passada a retirar ervas e a fertilizar todos os shohin com duas, três ou quatro bolas de adubo orgânico (consoante o tamanho e a espécie da árvore). São cerca de 1000 árvores, por isso foi uma tarefa demorada. A foto seguinte mostra a área dos shohin. Todas estas árvores foram fertilizadas por mim.

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Religiosamente, às 12h o almoço. O Sensei levou todos a um restaurante de udon. A comida era muito boa, em enormes quantidades, e o almoço ficou pela módica quantia de 3€... nem tudo no Japão é caro. Às 12:30 estava de volta ao trabalho.

Terminei a fertilização pelas 15h, já depois de nova sessão de rega. O Sensei levou-me à zona das gardénias, escolheu umas 6 ou 7, e mostrou-me o que eu devia fazer. Trata-se de material cultivado de semente, ao longo de cerca de 8 ou 9 anos, e que está já na fase final de desenvolvimento. O meu trabalho era de refinamento e definição da estrutura de ramos e selecção de ramos para o ápice.

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As gardénias estão à venda por cerca de 30000JPY, o que dá 200€.

Depois destas, seguiram-se outras 6 ou 7 gardénias. Pelas 17h o Sensei disse-me que continuasse no dia seguinte. Ainda faltavam 5. Mais tarde disse-me que eu podia fazer como quisesse: como fico cá apenas 17 dias, se eu quiser trabalhar noite dentro estou à vontade, tenho a chave e posso entrar e sair quando quiser. Fiquei até terminar todas as gardénias e saí pelas 20:30.

Juníperos, alguns deles muito famosos:

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O junípero shohin que está entre estes dois é o da imagem anterior a esta. Dá para ter uma ideia do tamanho das árvores, nada pequenas mesmo. O tronco é da largura dos meus ombros.

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O Sensei no final de um dia cansativo, em contemplação:

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Pôr-do-sol no país do sol nascente:

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2009-08-27

Dia 1

Depois de muitas horas de viagem, cheguei finalmente ao meu destino: Taisho-en. Ainda não conheci Urushibata-Sensei, que está em Tokyo. Fui muito bem recebido por Taiga-san, o filho do Sensei, que já me mostrou as redondezas e me integrou.

Hoje não houve tempo para muito bonsai. Cheguei por volta das 15 horas e foi preciso tratar de questões logísticas (leia-se comprar comida). De qualquer forma, já dei uma ajuda na rega, e não há melhor maneira do que essa para conhecer as árvores. Todas as minhas expectativas, mesmo as mais loucas, foram largamente superadas. Nunca vi árvores assim, de tão alta qualidade.

Amanhã começa a doer. Logo que acorde começarei a trabalhar. No final do dia penso que poderei mostrar as primeiras fotografias aqui. Até lá...