2009-09-10

Dia 14

Neste dia, depois de varrer, decidi vir para casa. Estava com dor de cabeça e cansado. Oyakata deu-me dois comprimidos para a dor de cabeça e quis levar-me ao hospital para ver se estava tudo bem comigo. Com algum esforço consegui negociar com ele: era só cansaço, e se eu não me estivesse a sentir bem à tarde então poderiamos ir...

Dormi duas horas e fiquei como novo. Depois do almoço estava de volta ao trabalho e encontrei Oyakata em acção a trabalhar os pinheiros shohin. Meti a objectiva Zeiss na máquina e apressei-me a pedir autorização a Oyakata para fotografá-lo enquanto trabalhava. Ele ficou muito surpreendido, sorriu muito atrapalhado e concordou. Como a objetiva é telefoto, pude fotgrafá-lo à distância quase sem que ele se apercebesse. O resultado vai abaixo.

Entretanto trabalhei mais juníperos mas desta vez quem os comprimiu fui eu. Oyakata deu-me liberdade total.

O Rui teve a ideia de fazer uma entrevista a Oyakata para o novo site de bonsai. Depois de algum braistorming com o Mário, enviaram-me por email algumas perguntas. No final do dia pude fazer a entrevista e as respostas de Oyakata foram extremamente interessantes.

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Dia 13

A manhã foi passada a retirar arames de todos os áceres shohin. Mas todos mesmo. Demorei muito tempo e a tarefa não é a mais agradável nem a mais criativa. Mas é importante e faz parte do bonsai. Aprendi bastante ao fazê-lo, pois tive a oportunidade de segurar todos os áceres daqui com as minhas mãos e estudá-los pormenorizadamente. Foi o melhor estudo possível aos áceres shohin de Taisho-en.

À tarde tive a oportunidade de falar português. Ultimamente só o tenho falado através do skype, sozinho ou com o cão Maro. O cão parece ser fluente. Continuando, esteve cá um cliente, que eu cumprimentei com o habitual Konnichiwa e a vénia. Pouco depois esse cliente veio ter comigo enquanto eu regava a falar português. Ele viveu no Brasil 8 anos e falava muito bem. Apesar de ter algum sotaque japonês misturado com o do Brasil, a construção era correcta. Foi engraçado.

Depois da rega, foi tarde dedicada aos juníperos. Pude ver Oyakata em acção, comprimindo e dobrando troncos aparentemente impossíveis de dobrar. Usou serras, parafusos, macacos, tensores... enfim, aprendi muito mesmo.

No final do dia Taiga-san sentou-se ao meu lado e falámos sobre bonsai. Contou-me um pouco da sua aventura como aprendiz de Kimura durante 6 anos, e da sua irritação por o trabalho dele ser confundido com o do seu antigo Oyakata. Falou-me de algumas árvores em particular e sobre filosofia do bonsai. Muito interessante. Mais tarde Oyakata disse-me que Taiga no início dos 6 anos nem sabia distinguir um junípero de um pinheiro, que não se interessava por bonsai e não sabia nada sobre o assunto... isto significa que o bonsai ao mais alto nível se pode aprender.

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

2009-09-08

Dia 12

Este foi um dia nostálgico. De manhã fiquei por Taisho-en, ajudei na rega, trabalhei um pinheiro negro de semente que está a dar os últimos passos para se tornar num bonsai, vasculhei as árvores todas do viveiro e encontrei um tronco de ácer tridente que me fez perder o juízo... enfim, um dia normal.

Depois de muita insistência de Asanuma-san, acabei mesmo por tirar a tarde e fui até Nihondara, uma colina aqui em Shizuoka com uns 300m de altitude. Foi o melhor que podia ter feito. O local estava muito calmo e fez-me lembrar por que razão gosto do Japão. Pela primeira vez na minha vida vi o monte Fuji e é colossal. Parece que não faz parte da paisagem, é tão fora da escala que quase parece que foi construído por alguém. Olha-se para a paisagem, consegue-se ver as nuvens por cima das montanhas e depois percebe-se que há qualquer coisa gigantesca acima das nuvens. É impressionante.

Em Nihondaira há também um santuário xintoísta, que serve de túmulo ao primeiro Shogun da era Tokugawa no Japão, Ieyasu. O mesmo que expulsou os portugueses do Japão e o fechou completamente ao mundo ocidental durante quase 3 séculos, até por volta de 1860, altura da restauração Meiji em que o poder foi devolvido ao Imperador e o uso de espadas samurai no Japão foi proibido. Quase todos os samurais cometeram Harakiri. O Japão moderno e industrial construíu-se a partir dessa altura, quando havia já muito atraso em relação aos restantes países. Por exemplo, nos USA já havia linhas de comboio a atravesar todo o país e no Japão ninguém sabia o que era um comboio. Hoje há shinkansen... Enfim, o santuário é muito agradável e calmo. Todo aquele ambiente me fez reviver muitos momentos da última vez em que estive no Japão, mas nessa altura não estava sozinho. Por isso fiquei nostálgico.

Para chegar ao santuário é preciso apanhar um teleférico... o da Fajã dos Padres é bem pior, mas este... bom, é um teleférico, acho que isso basta para que eu me sinta desconfortável.

Fui a Nihondaira e voltei em 3 horas. As fotografias seguem abaixo (a luz era muito má, mas pelo menos vê-se Fujiyama, ou Fuji-san, como lhe chamam os japoneses):

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

2009-09-07

Dia 11

A manhã foi ocupada com o pinheiro vermelho e com a rega. Estava mesmo muito calor.

No pinheiro fiz uma selecção de ramos, mudei radicalmente o ângulo, cortei todos os arames, mas não coloquei novos, apenas tensores e um pauzito de bambu. As agulhas do akamatsu nesta altura do ano estão muito frágeis (devido ao meikiri feito em julho) e é perigoso aramar. De qualquer forma, está tudo mais ou menos no sítio. Oyakata viu o resultado e gostou. Explicou que vai mudar o ângulo no próximo transplante. Disse-me que este pinheiro é muito antigo (ele acha que tem pelo menos 150 anos.

Aqui está o depois:


Photobucket

Para Oyakata Urushibata, o mais importante não é o aspecto da árvore depois de um restyling. O que é importante é assegurar o seu futuro. Por isso a imagem da árvore não é final, mas dá para ver para onde vai. Pensei no pinhal de Ofir, que tem pinheiros espectaculares, quando trabalhei esta árvore.

Alguns pormenores:

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

A árvore tem neste momento 42cm de altura. Está dentro da categoria chuhin e há margem para algum crescimento. Isto aumenta o seu valor.

À tarde, mais pinheiros. Mas desta vez Oyakata deu-me uns quantos shohin, todos muito caros e muito bons, para fazer limpeza de agulhas e um facelift como eu achasse mais adequado. Não consegui tirar fotografias, mas vou tentar mais tarde...

À tarde Oyakata deu-me também um enorme hinoki com um ten-jin. Fiz limpeza e facelift... é uma árvore impressionante, esta nem cabe no estúdio! Vou fotografá-la na bancada logo que possa.

No final do dia, Oyakata disse-me para não trabalhar no dia seguinte, que tirasse uma folga. Eu disse que não estava interessado, afinal fico pouco tempo e tenho que aproveitar ao máximo. Oyakata disse que não estará no dia seguinte, mas deixou-me trabalho, caso eu queira.

Pode ser que eu aproveite para ir a Nihondaira, uma colina em Shizuoka de onde se consegue ver Fujiyama e a baía. A última vez que vi o mar foi no Shinkansen, há mais de uma semana, e isso mete-me alguma confusão...

Dia 10

Pinheiros, pinheiros e mais pinheiros, parte 2. Foi impossível fotografar todos. Um atrás do outro, sempre sem parar. Oyakata quis que eu ganhasse prática e não me deu descanso.

À hora do almoço, levou todos a almoçar a um restaurante de ramen. Quando regressámos, distribuiu gelados pelo pessoal (estava muito calor) e deu-me mais pinheiros para trabalhar...

Estes pinheiros são material que não entusiasma muito, mas são bons para praticar. Oyakata é extremamente exigente com a técnica de aramagem e várias vezes tive que recomeçar. É frustrante, muito difícil conseguir aramar um pinheirito com muitos ramitos sem infringir nenhuma das regras de Oyakata. Por exemplo, não tolera mais do que dois arames em paralelo, a não ser em casos verdadeiramente excepcionais, não tolera cruzamentos a não ser que não haja alternativa (e ele encontra sempre uma), não tolera espaços nos arames, mesmo que milimétricos: faz um teste com arame 0.6mm de cobre: se couber entre as voltas, está mal e é preciso refazer. Enfim, bastante difícil... e tudo com arame de cobre.

Um exemplo dos ditos pinheiros:

Photobucket

Dizem que no futuro este pinheiro será muito valioso por ter a raíz exposta... a mim não me entusiasma.

No final do dia, Oyakata percebeu que eu estava cansado de tanto pinheirito e deve ter notado alguma frustração. No mesmo instante em quem entrou uma excursão de bonsaístas japoneses em Taisho-en (talvez uns 20, e todos queriam falar comigo, em japonês, claro) Oyakata disse-me que escolhesse qualquer árvore do viveiro para um restyling. Eu perguntei: qualquer? Oyakata respondeu: qualquer.

Eu já tinha um velho pinheiro vermelho debaixo de olho há uns dias. Um pinheiro discreto, extremamente elegante, yamadori, e com casca que parece massa folhada. Estava num estilo semi-cascata que não o favorece muito.

Mostrei a minha escolha a Oyakata, a minha proposta de design e ele concordou. Mas era já tarde e teve de ficar para o dia seguinte...

O estado do pinheiro antes do trabalho:

Photobucket

2009-09-05

Dia 9

Pinheiros, pinheiros e mais pinheiros. Assim se resume o meu dia. Para já, nada de kuromatsu, apenas akamatsu e goyomatsu.

O material era Às vezes muito fraquinho, o que é bom para desenvolver a técnica (que já melhorou muito, mas continua sofrível) e a criatividade.

As fotografias de alguns trabalhos seguem abaixo. Foram tantos, que foi impossível fotografar todos...

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

O junípero do 6º dia:

Photobucket

Talvez não pareça, mas é tanuki. Eu queria cortar o ramo da direita por estar ao mesmo nível que o da esquerda. Oyakata explicou que quer mais folhagem junto ao nebari para esconder que é tanuki. A folhagem à esquerda está a ser desenvolvida para ficar mais longa e dar caractér mais dinâmico à árvore.

E o meu junípero, agora em estúdio:

Photobucket

2009-09-03

Dia 8

Hoje Oyakata esteve ausente. Foi a Tokyo comprar bonsai num leilão. Ontem à noite indicou-me um pinheiro negro grande, disse-me que era de um cliente e que já tinha sido seleccionado para Kokufu-ten há uns anos. Depois largou a bomba: disse-me para fazer selecção de agulhas e pequenos ajustes que eu achasse adequados... como se isso não bastasse, disse-me que delegava em mim a responsabilidade de regar as árvores dos clientes (Oyakata trata disso pessoalmente todos os dias). Até dormi mal só de pensar em tanta responsabilidade...

Como dormi mal, o dia começou bem cedo. Pouco antes das 6, estava tudo varrido e eu arrancava as primeiras agulhas ao pinheiro. Não posso publicar fotografias do pinheiro, mas acho que esta posso partilhar:

Photobucket

O pinheiro ficou despachado pela hora do almoço. Asanuma-San foi muito simpático e levou-me à farmácia comprar mais repelente para os mosquitos durante a hora do almoço.

De seguida, fiz o que me mandou Oyakata: se tivesse tempo depois do pinheiro grande, podia escolher uns quantos pinheiros vermelhos shohin e trabalhá-los como me apetecesse. Aproveitei para tentar melhorar a minha técnica, que é bastante má. Aramar com cobre pinheiros de 12cm de altura é um óptimo exercício, mas é também muito frustrante. Tive que recomeçar várias vezes...

Aqui está o antes de um pinheiro que eu escolhi. Acho que tem um potencial tremendo. É muito pequeno (talvez 12cm de altura), mas tem enorme carácter...

Photobucket

Depois de 1 hora e meia a lutar com o arame o resultado foi este:

Photobucket

Não fiquei desagradado, mas a minha técnica precisa ser melhorada. Apesar de todo o esforço, continua a haver espaços em alguns arames...

Detalhes da casca:

Photobucket

Dimensão do tronco (é mesmo pequeno, talvez 1,5cm de diâmetro):

Photobucket

Outro pinheiro, num estilo bastante comum no Japão:

Photobucket

Depois:

Photobucket

A fotografia não está grande coisa pois já era escuro e perdi profundidade de campo. Amanhã vou tentar usar o estúdio para fotografar os pinheiros.

Material deste género há aqui às centenas. Alguns vão em breve ser exportados para a Europa, concretamente Espanha e Holanda. São cultivados a partir de semente e têm cerca de 8 a 10 anos. Nada mal, digo eu... gostava que os meus, que têm 2 anos, daqui a 8 se parecessem um pouco com estes.

Dia 7

Este dia começou com mais um junípero como o anterior para estilizar à minha vontade. Não tenho fotografias ainda dos trabalhos do 7º dia porque não houve tempo para as tirar, mas logo que possa actualizo o blog.

Depois deste junípero, pinheiros brancos shohin, cerca de 12cm, cultivados por semente. Trabalhei uns 12 e depois do almoço Oyakata deu-me um junípero cascata chuhin e disse-me: "please remake". Era mais um facelift. No final tive uma discussão sobre a estética da árvore com Oyakata, mas não faz sentido falar nisso aqui sem a fotografia. Mais tarde actualizo...

2009-09-02

Dia 6

O dia começou com a fertilização de alguns pinheiros grandes de clientes. O Sensei explicou-me que o fertilizante era especial, feito à mão. Só sei que cheirava muito mal...

Depois disso, o Sensei levou-me para a zona onde recebe os clientes, serviu-me chá verde e teve uma longa conversa comigo sobre o Bonsai e a filosofia associada. Disse-me, por exemplo, que uma árvore antes de uma demonstração na Europa vive com um estilo durante 30 ou 40 anos (30 ou 40 vezes 365 dias) e que num dia apenas tudo muda. É preciso ter mais respeito pela estética anterior e principalmente pela árvore, mudar tanta coisa num dia é muito drástico. Não se deve mudar o estilo só porque se pode fazê-lo ou porque se procura reconhecimento ou aplauso... e disse-me muitas mais coisas, a maioria muito profundas.

Durante o resto da manhã o Sensei disse-me para fazer um facelift a um grande junípero literati que estava com ar cansado. A folhagem estava muito densa e comprida. Quando o Sensei me deixou sozinho com aquela árvore e com liberdade para fazer o que eu quisesse... até me tremiam os joelhos. Depois de umas 3 horas consegui terminar. O Sensei veio verificar, soltou um "hoomm, good!". Fez uns ajustes milimétricos à posição da folhagem e disse-me para voltar a guardá-lo. Não há fotos do antes, mas no final o resultado foi este:

Photobucket

Depois Urushibata-Sensei disse-me que escolhesse um junípero por estilizar. Eu pensei que ia assistir a uma demonstração de técnica e criatividade do Sensei e tratei de escolher o que eu achava que era o melhor de todos os juníperos em bruto. Mostrei ao Sensei, ele disse "Good material. You are free to do what you want. Style it as you wish." Nova tremideira. Desta vez fiz fotos do antes:

Photobucket

Depois da selecção dos ramos e reposicionamento de alguns deles:

Photobucket

O resultado final em vídeo com o Sensei a passar atrás:



Mostrei ao Sensei e novo "hooomm, good". Desta vez nem ajustes milimétricos. Fico satisfeito por ver o meu progresso, há uma semana não seria capaz de fazer nada assim. É certo que sem ovos não há omoletes, o material é muito bom. Este junípero tem potencial para estar ao nível dos melhores de Taisho-en dentro de 5 ou 6 anos. O Sensei concordou. Não resisti perguntar se estava à venda... Urushibata-Sensei disse que sim e faz-me um preço super-especial se eu o quiser levar de volta. Acho que o vou fazer, é um bom junípero e a primeira árvore que trabalhei com total liberdade aqui.

2009-09-01

Dia 5

Mais um dia de actividade intensa. Muitas tarefas de rotina. Podei quase todas as árvores, deitei a mão a uns quantos áceres tridente impressionantes. Para além disso, continuei o trabalho nas gardénias - tratei de 80, 10 caixotes de 8 plantas. E isso nem é um décimo das gardénias que há cá... Retirei os arames a 3 marmeleiros enormes, um deles de um cliente e que me parece já ter aparecido no Kokufu-ten. Não tirei fotos porque não é apropriado publicar fotos de árvores dos clientes na internet.

Foram tarefas de rotina, mas que me ajudam muito a ganhar prática e melhorar a técnica.

Ficam mais fotos, desta vez de shohin:

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket